Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Um gato e alguns passarinhos

Primeiro que tudo - o gato:


É um saco de dormir prá bebê, pro meu netinho Fernando que vai nascer em março. Eu não pude ir no chá de bebê dele, não estava boa prá ir em festa (e foi maravilhosa, tantos docinhos, um bolo lindo, muita Coca Cola... Eu teria me esbaldado, "deitado o cabelo" nas guloseimas, mas minha família disse que eu não estava em condições, então me rendi ao inevitável. Você sabe que a coisa tá feia quando não te deixam ir a uma festa - se bem que eu me conheço, eu ia até melhorar no meio de tantas delícias... Mas, fazer o quê, né?...). Daí eu liguei prá ela, dizendo que não podia ir, que eles iam levar o presente que ela pediu - fraldas GG de montão - mas que eu queria fazer algo especial e tava pensando em fazer um saco de dormir, pois eu nem sabia que os tais existiam, tinha descoberto uns lindos no Pinterest e queria fazer... Ela então me pediu prá fazer grandão, pois já tinha ganhado um pequenininho de presente adiantado de uma prima e quando o inverno chegasse não iria servir mais.

Fiz esse de brim branco - ia fazer de soft ou de plush, tecidos mais macios, mas não são tecidos naturais, algodão é que é bom prás criancinhas - e brim é 100% algodão. 

Fiz ele bem grande, recheado com manta R2, todo matelassado. 

Comprei um travesseiro bem fofo, tirei ele do forro original, fiz um forro novo, oval, prá se acomodar no formato do gatinho. Depois do formato do gato ter sido dado, recheei as perninhas, bracinhos  e orelhas com manta acrílica e costurei um pedaço de tecido redondo, do tamanho de cada abertura, por dentro, fechando essas partes, pro enchimento não escapar - pois seria muito ruim fazer o forro também com orelhas, braços e pernas. Essas partes ficam fixas. Isso porque eu o fiz lavável - e só dava prá fazer desse jeito com a intenção de retirar o travesseiro de dentro.

Vejam que ele tem um zíper atrás:


É só abrir o tal zíper, remover o travesseiro, colocar na máquina prá deixar bem lavadinho, secar no sol e rechear com o travesseiro de novo.


E o zíper da frente é prá abrir e colocar o bebê dentro - o travesseiro de dentro é bem fofinho, afunda bem macio e vai caber o bebê confortavelmente lá dentro - e ele vai dormir quentinho e quietinho, sem se descobrir a toda hora.

Tem uma carinha simpática... Bordei com pedacinhos de feltro e linha de crochê.


Depois, quando não está sendo usado, pode servir prá enfeitar o bercinho, que ficou um gatinho bem engraçadinho - copiei de um gatinho que eu vi vendendo no Etsy, mas esse era pequeno, prá criança brincar...

Quando meu netinho crescer e não couber mais dentro o gato pode ser usado como almofada ou como porta pijama em cima da cama...

Agora vou ter que fazer um do Pikachu pro meu netinho mais velho, mas prá ele vou fazer menor, prá ele dormir abraçado - pois ele dorme abraçado num travesseiro... Acho que esse eu vou fazer de plush ou soft, pois acho que não tem mais perigo de dar alergia, ele já tem 4 anos de idade...

E então? Gostaram?

Agora vamos aos passarinhos...

Ano passado minha mãe me ligou no final de uma tarde chuvosa, toda alegre, me dizendo:

-"Ai, Rosa, você nem sabe... Tô toda ensopada..."

-"Por quê, mãezinha? A senhora saiu na rua num tempo feio desses?"

-"Não, filha... Eu tava lá fora segurando o guarda-chuva no ninho da passarinha... Ainda bem que teus irmãos chegaram e amarraram o guarda-chuva em cima do ninho, prá proteger os ovinhos..."

Essa minha mãezinha... Tá ficando cega, sofre de mácula degenerativa. Lê a Bíblia usando uma poderosa lente de aumento, pois os óculos estão praticamente obsoletos pros olhinhos cansados dela... Mas graças aos meus irmãos ela soube onde uma rolinha tava fazendo ninho: numa árvore violeteira que fica do lado da escada de entrada da casa... Então, estando sozinha em casa quando o temporal começou, ela imediatamente pegou o guarda-chuva e foi proteger o ninho da rolinha e se ensopou toda!

-"Mas mãe? E o teu reumatismo?"

-"Ah, filha... Deus protege! Tô tão feliz que nem me lembro das dores..."

Daí meus irmãos, prá isso não se repetir, pegaram uns arames e prenderam o guarda-chuva permanentemente protegendo o ninho, de forma que o mesmo não saísse voando com o vento. A passarinha parece ter entendido que estava sendo protegida, pois se deixou ser fotografada e até filmada pelo meu irmão... Eu peço prá ele me mandar as fotos pelo zap, prá eu poder postar - e ele, apesar de ter aprendido (comigo) a mexer, sempre esquece...

O guarda-chuva ali permaneceu enquanto os ovos eram chocados. Os filhotinhos nasceram, ela os alimentou - e o guarda-chuva lá, fazendo sombra e protegendo da chuva. Minha mãe acompanhou todo o processo, até os filhotinhos aprenderem a voar e todos eles abandonarem o ninho, seguindo suas vidas pelos céus afora da nossa Penha.

Minha mãe garante que a passarinha aparece volta e meia na janela prá visitá-la.

Então, duas semanas atrás, logo depois de uma chuva, um filhote de passarinho que não sabia ainda voar caiu do ninho bem no meio do jardim da minha mãe - que está ficando cega, sim, mas escuta que é uma maravilha e tem a cabeça afiada, melhor que a minha...

Ela escutou os pios do coitadinho e foi procurar, no meio das plantinhas... 

Ele fugia andando, com as perninhas fininhas igual palitinhos, e se escondia no meio das plantas. 

Meu irmão Tato havia comprado uma casa de passarinhos, sonhando que aquela passarinha do guarda-chuva e seus filhinhos quisessem permanecer no jardim prá sempre - ficou tão triste que isso não aconteceu! 

Ah, se vocês conhecessem meu irmão Tato! Ele é tão lindo!!! É alto, muito forte, tem a pele bem bronzeada, pois sempre trabalhou de pedreiro, dois olhos verdes que parecem faróis, brilhando no rosto... Mas só começou a falar papai e mamãe com 7 anos, tem a mentalidade de um menino de 12 - e as mulheres que o veem o acham lindo, paqueram, convidam prá sair - e ele fica todo vermelho, envergonhado... 

Acorda todo dia antes das 6 da manhã prá rezar o terço prá Nossa Senhora, de joelhos, e fica falando assim: "Cuida da minha Rosa, Nossa Senhora! Cuida da minha Cida, da minha Fátima..." e vai desfiando os nomes de todo mundo na família - nunca reza prá si mesmo...

Pois eu aqui divagando, falando do meu Tatinho... Ele foi lá pegar aquela casinha de passarinho, que ele havia guardado todo triste, colocou ela apoiada na terra do jardim e ficou espiando da janela da sala - até ficar todo satisfeito que o passarinho tava se escondendo lá dentro, quando ameaçava chuva...

Durante 6 dias o passarinho viveu na casinha sobre a terra. Comeu dos bichinhos do jardim - e lá tem muitos, pois minha mãe e ele fazem compostagem com todos os restos de verduras e de frutas e adubam a terra - e era visitado por outros passarinhos - talvez os pais, quem sabe. 

Daí ele aprendeu a voar e se foi - livre como os passarinhos devem ser. Se os passarinhos das gaiolas pudessem sonhar, sonhariam ser ele, eu acho...

Então ontem, no final da tarde, minha mãezinha me liga.

-"Ô, filha, você tá bem? Não falo com você desde ontem de manhã!"...

E eu peço milhões de desculpas, pois realmente pisei na bola. Fui na dentista, cheguei em casa cheia de coisas prá fazer, uma correria doida essa minha vida, acordei e montanhas de coisas prá fazer e, no vai-prá-lá e vem-prá-cá me esqueci de ligar prá ela. 

Depois de muita desculpa e muitos "eu te amo, mãezinha" ela começa a me contar de mais uma aventura entre passarinhos.

-"Sabe, filha, um passarinho cismou de fazer ninho naquela minha roseira maior - e, pobrezinho, ficou todo enroscado!"...

-"Mas, enroscado como, mãezinha?"

-"É que eles usam de tudo prá fazer ninho - galhos fininhos, folhas secas, fiapos de vassoura... Esse usou fios de linha - que sei lá onde arrumou... Eu sei que ele tava tecendo o ninho e deve ter vindo um vento, os fios começaram a se enrodilhar nas perninhas dele e, de tanto se debater, acabou ainda mais preso. Eu escutei a barulheira vindo do jardim e, quando fui ver, o pobrezinho estava pendurado de ponta cabeça pelas perninhas! Que dó..."

-"E daí, mãe? Me conta o que aconteceu com o pobrezinho?"

-"Ah, teu irmão Paulo chegou bem nessa hora - eu tava até com medo de pegar no passarinho e machucar ainda mais ele, medo de lhe quebrar as perninhas, ou as asinhas quando ele se debatia... Teu irmão pegou uma tesoura e separou o passarinho da roseira, levou ele prá dentro de casa e, sentado na mesa da cozinha, onde bate bastante luz, pegou uma gilete e com todo cuidado do mundo, foi cortando fiozinho por fiozinho que prendia as perninhas dele. Parecia que ele sabia que a gente tava ajudando ele: ficou tão quietinho, não bicou teu irmão! Bom, quando o Paulo cortou o último fio o passarinho voou todo satisfeito pela janela!"...

A voz da minha mãe tava toda feliz, toda remoçada. Minha salvadora de passarinhos, minha menina sonhadora, tão velhinha, com cabelinhos branquinhos e fininhos como os de uma criança!

Como gosto de vê-la feliz - ela, por incrível que pareça, é como eu: se contenta com pouco, um passarinho voando livre já lhe arranca um sorriso e um suspiro...

Eu sei que, às vezes, passo outra impressão - especialmente depois da postagem sobre a tristeza. Não posso fazer nada - cada um é como é. Podemos culpar alguém que nasceu diabético, ou surdo, ou cego, por ser do jeito que é? Eu sei que eu sou privilegiada, muito amada, muito cuidada, tenho uma família linda... Se eu vivesse com os olhos apenas voltados prá minha vida, tudo seriam risos - mas não é assim que vivemos, não é mesmo? O meu mal é ser muito consciente do mundo à minha volta - não consigo ser alienada, cabecinha fresca (bem que eu gostaria...). Jesus já dizia: a boca fala do que está cheio o coração e o meu tem uma quantidade de tristeza bem acima da média... E como poderia ser diferente, gente do céu? A gente liga a televisão e vê tudo o que acontece no mundo - e nem precisa ir tão longe no planeta, viram o caos que está no Espírito Santo? A filha vem e conta prá gente todas as maldades que falaram na morte da mulher do Lula (gente sem cristandade nenhuma, por mais que alguém errasse comigo eu não falaria os absurdos que falaram, eu jamais desejaria o mal assim - nem pro Hitler, como é que pode ter gente de coração tão duro nesse mundo, Deus do céu?!)... Isso tudo machuca meu coração: maldade, ignorância, preconceito, falta de fé. Mas foi Deus quem me fez assim... 

No entanto eu prometo me policiar, falar de coisas amenas, flores e passarinhos - o mais que der. Afinal eu não quero que este blog tenha uma trilha sonora ao som de violinos tristes.

Eu gosto muito de ouvir aquela música boba dos minions, sabe qual é?

"Because I'm happy!"...

Porque eu sou - feliz, de verdade.

Mesmo tendo um coração meio triste...

Até.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Tristeza



Não quero deslocar o ar 
com minha passagem
Não vou pisar pesado
e nem bater a porta...
Almejo seguir com a vida
tão despercebida
quanto aqui cheguei.

Não quero respingar
quando cair na água,
quero chegar ao fundo
com peso muito leve
e ali ficar prá sempre
sem causar nem onda
nem tremulação...

Quero mais que tudo
ser levada pela correnteza,
igual folha liberta
do galho seco onde estava presa.

Matar a sede
com as gotas que caem da goteira.

Ver a luz somente
através das frestas na madeira.

E só comer fruto ou semente
que não faça falta à ninguém...

Quero ficar esquecida naquele canto escuro
do qual ninguém se lembra
de tirar o pó...

Desaparecer como fumaça ao vento,
me dar por perdida em meus pensamentos
sem razão que baste prá me encontrar.

Quero carregar no peito
apenas a carne e o sangue
de que o pobre é feito.

Não quero ter sonhos
dos quais possa acordar...

Vou carregar comigo somente
a tristeza que não me abandona.

Só quero ser deixada em paz...

Quero apenas amar pela metade
Mentir
Com tamanha força e tanta vontade
Até crer que é verdade
Que eu não quero nada...

A tristeza.

Como temos medo dela...

Acho que se houvesse uma pílula que a gente pudesse carregar na bolsa e que pudéssemos tomar quando necessário prá mandar a tristeza embora - seria o remédio mais consumido no mundo inteiro.

Talvez grande parte dos alcoólatras e dos drogados busquem em seus vícios o remédio prás suas tristezas - não sei dizer, nunca bebi nem fumei, nunca experimentei nenhuma droga (a menos que café seja droga - o que, segundo meu marido, é...).

Jesus ficava triste - era humano também. Ficava bravo. Expulsou vendilhões que comercializavam dentro do templo, distribuindo chicotadas prá todo lado (imagina se fosse hoje em dia, pobre Jesus, iria chicotear noite e dia, mas não ia conseguir expulsar nem uma fração deles...).

Lembram como ele chorou quando soube que seu amigo Lázaro havia morrido? E olha que ele já sabia que ia trazê-lo de volta à vida - mas acho que Jesus chorava de ver os outros sofrerem, quem sabe...

Nas vésperas de ser preso prá ser crucificado ele também chorou - mostrando prá gente que, fortes ou fracos, todos nos tornamos pequenos diante da tristeza.

Humanos.

Em dezembro fomos viajar de carro prá conhecer Florianópolis - ideia do meu filho. Fez roteiro de todas as praias que deveríamos conhecer, todos os pontos turísticos. Levei várias caixas de remédios prá dor, relaxantes musculares, anti-inflamatórios, pois a última coisa que eu queria era atrapalhar as férias da família com os meus problemas.

Caminhei com eles em todas as praias (com minha bengalinha), entrei nas águas geladas (sempre de mãos dadas com alguém...), visitei fortes, subi escadarias, visitei as alturas dos mirantes - até fui elogiada por minha coragem por uma moça, que disse que muita gente de saúde não se arriscava a ir tão longe, que eu estava de parabéns!

Pois é: a gente tem que se esforçar prá não ser um fardo prá ninguém - especialmente para as pessoas que amamos.

Sejam as dores físicas ou morais. Analgésicos para umas, orações para as outras.

Mas às vezes: os analgésicos são fracos demais... Às vezes as orações não bastam...

Estávamos numa praia chamada "Praia Mole". Começou errado logo no início: meu marido estava procurando um lugar seguro prá deixar o carro, vimos uma placa na calçada indicando "Estacionamento" e entramos. Era uma casa grande na beira da tal praia, com um quintal enorme usado para estacionar carros. Estava em obras, pois na parte mais próxima da areia estava sendo construído um restaurante. Quem nos recebeu foi um homem que parecia ser o chefe dos pedreiros e foi logo nos dando um preço que era o dobro do que estava marcado na placa. 

Mal humorada eu disse pro meu marido que queria procurar outro estacionamento, que os outros não seriam malandros a ponto de cobrar o dobro de nós (porque eu percebi no rosto do homem que ele era meio pilantra, medindo a gente pelo carro, por sermos de São Paulo) mas fui voto vencido: todo mundo queria ficar por ali mesmo.

Fomos então arranjar um local tranquilo na areia prá montar o guarda-sol, estender as cadeiras. Praia lotada, homens marombados, mulheres plastificadas. Podem pesquisar: a "Praia Mole" é o ponto de encontro do pessoal que adora se cuidar e se exibir... A mim não incomodavam, até porquê, depois de uma certa idade, nós meio que nos tornamos invisíveis: apenas uma velha de maiô andando devagarinho pela areia.

E devagarinho é pouco: de todas as praias em que fomos, a Praia Mole tem a pior areia que se possa imaginar: uma grossa camada de areia extremamente fofa na qual nossos pés afundam como se fosse um pudim - e que faz o ato de caminhar um exercício desumano prá alguém normal de uma certa idade (imagine alguém usando uma bengala... Aliás: a bengala morreu, pobrezinha. Não sei se foi a água do mar, as mãos cheias de protetor, a diversidade das areias - só sei que ela ficou colenta, um nojo. Chegava em casa e tinha que lavá-la e passar maisena, ela então ficava menos pegajosa, mas feia de doer... Pobrezinha, tão prestativa...).

Meus filhinhos, depois que a gente achou um cantinho prá se esparramar, foram dar voltas pela praia e lá ficamos eu e o Marildo (ele lendo, eu apreciando o mar e tomando um solzinho nos palmitos enormes que chamo de pernas). 

Sabem como são as praias: vendedores de churrasquinho de queijo, castanha de caju torrada, sorvete e churros. Meu marido não gosta que a gente compre nada dos vendedores de praia - diz que não tem higiene e que tudo vem coberto de areia (eu não me importo, mas não me compram nada, bando de sovinas do caramba...).

Lá fico eu bebericando da água que eu mesma trouxe, sentindo o cheiro do queijinho derretido, a fome aparecendo (e eu discutindo mentalmente com o meu estômago, afinal de contas não haviam nem passado duas horas do meu café da manhã...) quando me passa pela frente um vendedor de churros - mais um, como qualquer outro... Mas não.

Eles vendiam os churros assim: uma assadeirinha de alumínio redonda. Uns 20 pedaços de canos de pvc (de construção, de fazer encanamento) serrados numa altura de uns 7 cm, um ao lado do outro dentro da assadeirinha - e dentro deles os churros, de pé, recheados de chocolate ou de doce de leite e cobertura de açúcar e canela ou granulado...

Tá, tá... Primeiro eu olhei porque queria o churro, mas aí reparei no braço do rapaz e seguindo o braço cheguei no próprio - talvez a idade do meu filho, mais baixo, pele curtida de sol, boné vermelho na cabeça, camiseta preta. Suado. Cansado de caminhar prá lá e prá cá naquela areia fofa. Parecendo tão triste.

Triste não. Eu reconheço desespero quando vejo. Depois de receber não das pessoas mais ou menos próximas de mim eu o vi caminhar um pouco, limpar o suor da testa, respirar fundo prá criar coragem e seguir na minha direção com a bandeja...

Antes dele chegar eu falei pro meu marido:

-"Quero churros. Me compra, por favor, quero churros"...

O rapaz chegou, ofereceu, meu marido agradeceu e ele foi embora, a tristeza personificada.

Meu marido nem percebeu - mal ergueu os olhos do livro. Me disse que outra hora me comprava churros limpinhos no shopping, que não ia comprar aquela porcaria prá eu comer e passar mal.

E eu - enquanto o rapaz não saiu do meu campo de visão - fiquei repetindo, implorando que queria churros, "churros daquele moço ali!", que ele precisava muito vender algum churro, já quase chorando...

Nessa hora nem percebi e meus filhos estavam voltando - e sabem ler a cara da velha muito bem. Vieram perguntando o que tinha acontecido, porque eu estava triste e eu falei:

-"É que o papai não quis me comprar churros de um rapaz que passou aqui, que tava muito triste, meu coração tá apertado por causa dele... Sabe quando a gente sente que alguém não está bem e tem que fazer alguma coisa prá ajudar? Eu queria comprar churros dele, talvez assim ele ficasse menos triste...".

E meu marido, achando que era só coisa imaginada por mim, ainda dizendo que os churros deviam até ser de ontem, cobertos de suor e de areia e eu dizendo "Eu queria comprar um montão de churros dele, daí podia até jogar no lixo depois, sem ele ver, mas pelo menos eu ia fazer alguma coisa..." (quando, na verdade, sem problema algum eu comeria algum churro, pois não tenho esses fricotes...).

Meu filho então, com aquela doçura que ele tem para comigo, me pegou na mão e disse:

"-Dentro da tua bolsa tá a minha carteira e dentro dela tem uns cento e vinte, cento e cinquenta reais - são todos teus, velhinha, prá comprar todos os churros que você quiser, todos os queijinhos que te der na telha comprar. Não precisa pedir, que o meu dinheiro é teu. Agora me descreve o rapaz que eu e as meninas vamos atrás dele comprar os teus churros...".

Levantamos todos, desmontamos o guarda sol, dividimos as cadeiras e saímos andando pela praia, caçando o vendedor de churros - pois eu queria estar junto, prá sentir que era mesmo minha imaginação todo aquele desespero que eu vi, me olhar depois no espelho e me chamar de boba, rir da minha própria cara...

Mas não o achamos mais. Talvez tenha voltado prá casa, talvez tenha ido prá outra praia. Estranho, pois eles trabalham circulando pelo mesmo lugar, prá lá e prá cá.

Nunca vou me esquecer dele e prá sempre vou me sentir um pouco culpada - sei lá pelo que eu tenho culpa, mas tenho.

Tem pessoas que nascem diabéticas. A vida inteira vão ter que lidar com a doença, com as restrições alimentares, com os remédios...

Algumas pessoas nascem daltônicas - não existem óculos prá corrigir isso. Meu filho mesmo, meu doce Ike, confunde verde com vermelho, bege com cinza e com rosa... Minha Lola tinha que escrever o nome de cada cor nos lápis dele, senão ele pintava tudo errado na escola - naquele tempo ele nem contou prá mim, prá não me preocupar, ficou só entre ele e as irmãs...

Eu tenho olhos que enxergam a tristeza, a solidão e a dor.

Tem um grafite no meu bairro que diz assim: "Nós não vemos o que vemos, nós vemos o que somos. Só veem as belezas do mundo aqueles que tem beleza dentro de si." e eu acho isso muito verdadeiro. Podem reparar: as pessoas que enxergam maldade, perversão e sujeira em tudo geralmente é porque tem isso dentro delas mesmas. Quem mais é cheio de moralismos, quando a gente vai ver, tem o rabo preso, não é assim? 

Eu, seguindo essa linha de pensamento, sou muito triste, pois meus olhos sempre acham a tristeza onde ela se esconde. Se eu estiver andando de carro estou olhando dum lado pro outro e sempre encontro os cachorros abandonados, os mendigos se encolhendo nos cantos, as meninas tristes e sozinhas...

Mesmo assim sou uma pessoa feliz: se você vai na minha casa eu estou picando legumes ouvindo músicas como "Jump", do Van Hallen, ou estou costurando assistindo Irmão do Jorel na TV. Fazendo pratos e mais pratos gostosos prá minha família comer, todos satisfeitos...

Nas doze horas que levou a viagem de volta paramos num posto de gasolina onde havia duas cadelinhas sarnentas mendigando comida pros viajantes - e lá vou eu choramingar de novo. Volto do banheiro pro carro caçar dinheiro prá comprar comida prá elas e me avisam que "o papai já comprou e tá lá dando"... 

Vontade de adotar as duas, trazê-las prá São Paulo no colo, cobertas de sarna e de pulgas.

Tentar fazer deste mundo um lugar melhor, de pouquinho em pouquinho, mesmo com o coração pesado.

Dentro do meu coração eu pensei em como eu seria mais feliz se não enxergasse a vida como eu enxergo... Como seria bom andar no mundo de olhos e ouvidos fechados, prá não ver nem ouvir toda a tristeza que percebo através deles - e sabe o que aconteceu?

Peguei uma conjuntivite daquelas, mais de duas semanas com os olhos enevoados e leitosos, acordando com eles lacrados de pus seco, vermelhos e queimando.

Como se não me bastassem os ossos doendo...

Então, domingo passado, oito da noite - hora do evangelho no lar. Mesmo com os olhos ruins é minha tarefa ler dois capítulos na sequência - estou quase chegando no final de Lucas. Deixamos uma jarra de água na mesa e, ao final, dividimos os copos.

Bebi parte do meu e a outra parte lavei os olhos, pedindo perdão por reclamar dos olhos que tenho.

Amanheci com eles limpos - embora ainda enxerguem a vida da mesma maneira.

Mesmo se existisse a tal pílula que cura a tristeza eu não a tomaria. De que ia adiantar eu não sentir o que ainda existe no mundo? Enquanto eu for assim sempre vou poder tomar alguma iniciativa, fazer alguma coisa prá ajudar, mesmo que seja quase nada...

Minha avó me ensinou a rezar uma oração católica chamada "Salve Rainha", na qual se fala de um vale de lágrimas. Quando eu era pequena eu perguntei prá ela que vale era esse e ela me respondeu que era o mundo. Que aqui o que mais se faz é chorar...

Não sei. Acho que aqui é um vale de lágrimas e de risos, um caminho permeado de espinhos e de flores. Alguns de nós parecem ter uma armadura - parecem até não se ferirem nos espinhos. Às vezes dá até inveja... Enquanto isso, outros de nós parecem atravessar pelos espinhos carregando o coração nas mãos, um ferimento após o outro e seguem sem parar prá onde quer que estejam indo...

Aquele poema bobo do começo da postagem fui eu escrevi muito tempo atrás, quando a tristeza não queria sair de mim nem chorando - então eu a pus no papel.

Dá pra ver que não nasci pra poesia...

Aquela tristeza? Passou. Vieram outras e outras virão - pura matemática da vida.

Não quero jamais amar pela metade - quanta bobagem. Quero amar o triplo, cem vezes, mil vezes mais. Porque o amor é que é o remédio.

Na próxima postagem eu mostro um saco de dormir que fiz pro meu futuro netinho que vai nascer em março. A gravidez da minha enteada segue firme e forte, com a graça de Deus.

É assim que seguimos vivendo.

Ah, lixei e pintei minha bengala - ressuscitei ela, por assim dizer. Meu filho disse que ia me comprar outra, mas prá quê? Ficou linda. Se vocês virem uma velha na Penha atravessando devagar a rua com uma bengala azul, por favor, não atropelem. Sou eu.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Fim de ano



Foi num fim de tarde desses, prá trás... Meu marido chegou em casa, buzinou prá eu abrir o portão, como sempre faz. Eu - tão rapidamente quanto consigo... - me encaminho até o portão e pergunto, mais gesticulando do que usando minha voz:

"- Comprou pão?"

E ele, de dentro do carro, faz aquela cara de esquecido que eu já conheço e começa a manobrar o carro prá voltar prá padaria.

Eu resolvo ficar ali na garagem, em meio as minhas plantinhas, aproveitando os últimos raios de sol, o barulhinho dos pássaros se ajeitando nas árvores prá dormir...

Subindo minha rua vem então uma moça - mais uma senhora, na verdade... - vestindo tudo branco, cantarolando baixinho num passo lento e ritmado, voltando prá casa depois de um longo dia de trabalho, com um semblante calmo e parecendo ser o tipo de pessoa que sempre traz um sorriso no rosto.

Me cumprimenta "Boa noite!", eu me pergunto "Eu a conheço?" e respondo mecanicamente ao cumprimento, continuando a me perguntar...

Ela sobe lentamente a ladeira, meu marido chega e eu abro os portões da garagem - e quando faço isso, automaticamente me coloco do lado de fora, na calçada, a fim de vigiar desconhecidos com más intenções e aí percebo...

Na quadra de cima a moça de branco pega a chave dentro da bolsa e entra numa casa... "Eu conheço aquela casa! Ali mora..." e os meus pensamentos, tão competentes viajantes do tempo, me mostram uma história antiga na qual fui coadjuvante e que me ensinou tanto sobre a vida e as pessoas...

Eu tinha quase nove anos de idade, tinha cinco irmãos menores do que eu, uma avó velhinha e doente que morava conosco, uma mãe costureira que trabalhava de dia e de noite e que não vencia as dificuldades e um pai desempregado...

Estávamos todos famintos. Eu menos que todos, a bem da verdade, pois eu frequentava a escola pública perto de casa e lá serviam merenda...

Minha mãe - me lembro bem, o rosto encovado, os olhos fundos, tão magra que até parecia nunca ter tido um filho na vida! - estava física e moralmente abatida. Sabe aqueles momentos da vida nos quais parece que tudo dá errado, que todos nos voltam as costas? Pois ela estava vivendo um momento assim: seus irmãos prosperavam a cada dia e não se lembravam da existência dela - nem de seus filhos pequenos e muito menos da própria mãe deles, que lhes partilhava a sorte...

Pois minha mãe me fez calçar os sapatos da escola - os meus únicos sapatos - e me disse que a gente ia sair, que do jeito que estava não podia continuar.

Lavou o rosto, tentando disfarçar os olhos vermelhos de chorar escondido, penteou os cabelos tão ralinhos, ajeitou a roupa e me pegou pela mão. Andamos alguns metros até a esquina e então descemos a ladeira (pois o bairro da Penha é cheio de ladeiras, prá todos os lados que se ande...) e viramos em direção à avenida principal. 

Ela não me disse onde a gente ia e eu não perguntei.

Chegamos num açougue pequeno, cujo dono (a quem nós crianças conhecíamos como "o português") era um homem baixinho, pouco maior que a minha altura, de quem nós raramente comprávamos carne - haviam lugares mais baratos prá se comprar, na verdade...

Minha mãe foi até o balcão e depois de remoer pensamentos por um período que me pareceu eterno, ela assim se dirigiu ao açougueiro:

-"Bom dia, seu açougueiro. Meu nome é tal, eu moro aqui na rua de cima, eu sou costureira, uma boa costureira, na verdade. Mas ultimamente as freguesas andam custando a me pagar, meu marido está desempregado...

A questão é que eu tenho seis filhos pequenos - esta aqui é a minha mais velha - e comigo ainda mora minha mãe, que está velhinha e doente. Já falei que meu marido está desempregado? Bom, é que...

Nós estamos passando muita dificuldade, eu queria saber se o senhor podia... Se o senhor podia me vender um quilo de carne prá eu pagar depois, porque as crianças estão com fome, o senhor sabe... Eu juro pro senhor que eu pago, o senhor pode perguntar por toda essa vizinhança, todo mundo me conhece, eu nasci aqui. Eu não sou caloteira, eu pago pelo quilo de carne..."

O "português" olhou muito prá minha mãe - mas foi um olhar diferente dos olhares que outros homens lançavam prá ela (que era uma mulher muito bonita, apesar dos maus tratos da vida...) e depois de algum tempo ele perguntou:

-" A senhora não é a irmã do dono da quitanda ali na rua Omachá e do dono da padaria que fica ali perto e dos dois donos do armazém naquela outra esquina?"

E era. Irmãos tão ricos, bem estabelecidos e prósperos, que trabalhavam em seus comércios mais prá ocupar o tempo, pois tinham dezenas de imóveis alugados... Irmãos que faziam questão de ignorá-la...

Minha mãe, abaixando os olhos envergonhada, disse que era e já se preparou prá ir embora sem o quilo de carne. Pensou, num lapso de tempo, que deveria estar passando pela cabeça do "português" que se os próprios irmãos não vendiam fiado prá ela, ele também não deveria...

Mas os pensamentos dos outros são um mistério, não é mesmo?

O "português" deu um sorriso simpático, disse que venderia fiado o que minha mãe precisasse, sempre que precisasse, que sabia que ela não era caloteira. Que ela podia mandar a mim ou a um dos meus irmãos buscar carne sempre que a gente precisasse.

-"Ah, e minha esposa e minha filha estavam mesmo precisando duma costureira, vou mandar elas irem lá na sua casa...".

E assim foi. 

Minha mãe sempre curou fraqueza com carne - sempre que ela se sente mal ela adora comer um bifinho, diz que lhe dá forças...

A "portuguesa" apareceu com a filha na nossa casa, naquela mesma semana. Viraram freguesas, muito embora nunca tenha se estabelecido uma amizade entre qualquer das crianças da minha casa e a menina deles, uns 3 anos mais nova do que eu. Acho que, no fundo no fundo, nós sabíamos nosso lugar... Às vezes a necessidade de receber caridade alheia nos coloca longe do alcance do convívio com os outros, especialmente aqueles que nos são benfeitores.

Mas depois de tanto tempo que se passou eis que passa pela minha porta e me cumprimenta aquela menina do passado - trabalhadora da saúde, toda vestida de roupa branca, talvez uma enfermeira, talvez uma fisioterapeuta... Uma mulher de fisionomia tranquila, que como era de se esperar mora na minha rua, na mesma casa onde residia com seus pais - o açougueiro português, já falecido.

Eu não me lembrava dela - coisas estranhas da nossa memória. Mas ela aparentemente não se esqueceu de mim...

As coisas passam por nós - ou somos nós que passamos por elas - e restam as lições prá gente aprender.

Minha mãe me ensinou que uma mulher nunca pode pedir um favor a um homem estando sozinha. Voltando prá casa, naquele dia, carregando na mão o quilo de carne embrulhado num pedaço de jornal minha mãe me falou que muitos homens aproveitam a necessidade que uma mulher está sofrendo prá tirar vantagem dela - e que ela me havia levado junto como um escudo, como um lembrete de que ela não era uma mulher, era uma mãe... Se os tempos fossem hoje eu me atrevo a pensar que poucos homens se sentiriam movidos pela presença de uma criança, mas chego a ter certeza, dentro do meu coração, de que aquele "português", mesmo se minha mãe estivesse ali sozinha, jamais teria se aproveitado dela...

Aprendi que existem boas pessoas no mundo - Deus me ensinou isso mais vezes do que posso contar.

Naquela visita ao açougue eu aprendi a humildade de me socorrer de um estranho prá sobreviver à fome. Aprendi a fazer bainha - prá ajudar minha mãe a fazer os vestidos daquela menina - eu fui a única das filhas que se interessou em aprender um pouco do ofício da mãe, menos por curiosidade e talento e mais prá aliviar o pesado fardo dela... E no final essa vontade de ajudar minha mãe acabou rendendo bons frutos em mim, que até sei costurar muitas coisas...

Aprendi que a gente tem que seguir vivendo, que dias melhores sempre virão, sucedendo os dias ruins...

Esta é minha última postagem do ano. Foi um ano duro prá mim, com a saúde mais abalada do que nos anos anteriores - decorrência natural da passagem do tempo, gastando o maquinário que habito.

Mas sonho com um ano melhor, como todos aqueles que entregam seu destino a Deus enquanto trabalham e fazem a sua parte prá fazer deste mundo um lugar melhor, mesmo num cantinho esquecido do mundo, mesmo com um pequeno alcance.

A vocês que aqui ficam eu desejo um Natal cheio de paz e com saúde, um Ano de 2017 com muitas oportunidades de trabalhar e seguir vivendo - que (como eu já falei antes) enquanto a gente trabalha e ora, o tempo passa e logo a gente volta prá casa, com a graça de Deus.

Até o ano que vem, se Ele assim permitir.


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